The Shadow Hunter

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Keep it Simple

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Autenticidade e significado

O sociólogo do trabalho Domenico de Masi em sua obra "O ócio criativo" descreve três atividades necessárias para o ser humano - o trabalho, o lazer e o aprendizado. Ele explica que na sociedade industrial havia uma divisão clara de locais para cada uma delas. Haveria um local de trabalho, outro de lazer e outro de aprender. A fábrica, o circo e a escola são exemplos simbólicos desta divisão.

Atualmente, esta separação está se transformando em função de uma convergência. Em outras palavras, a cultura está se amoldando para convergir em um só lugar os atos de produzir, divertir-se e aprender. A premissa seria se chegar a um ponto em que estas três dimensões de prática estejam implicadas em cada experiência cotidiana.

Liga-se muito este tema ao de liderança hoje em dia. Isto se dá pois o mundo atual passa por um momento de transformação em pensamento, sistemas de crenças, valores e ideologias. A figura de um líder consta naturalmente como algo indispensável na condução do grupo ou sociedade em direção à resolução de seus anseios. O que fundamnta uma mudança desta magnitude e profundidade é um incômodo comum e evidente para todas os indivíduos em conjunto. Nesta situação, o desejo de todos torna-se o de "que a situação do presente fosse diferente da que está". Então, o líder é instituído pelas próprias condições implicadas para ajudar o grupo de pessoas a buscar aquilo que elas mesmas desejam.

Com relação à separação entre as três vertentes de atividade de De Masi, observa-se que, quando atuando isoladamente em cada uma delas, o indivíduo sentirá falta das outras duas. Se o homem só vai a escola, ele não terá jamais consciência de seu verdadeiro conhecimento e o vazio deste exercício torna-lo-á tão monótono que não haverá progresso na finalidade de aprendizado. Se o homem só se diverte, a atividade se tornará repetitiva e vazia até deixar de provocar prazer e perder totalmente sua razão, o que levará a condição do indivíduo para apatia e desmotivação. Se o indivíduo só realiza o movimento de trabalho, sem pensar sobre este e aprender durante o processo, sem contemplá-lo para se entreter com as curiosidades, ele acaba percebendo que está tomando um lugar de "coisa". Ele se sente desprovido de personalidade e consciência.

É possível perceber que o ideal deve ser o equilíbrio, mas na prática não é tão simples como o ato de mover a peça de xadrez e aguardar o próximo movimento do adversário. As pessoas são educadas em geral para perceber equilíbrios estáticos e, assim, proceder com lógica sobre problemas que não estão em constante mutação. Para este caso de se buscar o equilíbrio interdependente entre estas tês vertentes de ação, enfrenta-se um cenário com múltiplas variáveis, cada uma entrando e saindo de influência condicionante sobre a situação. Se o indivíduo deixa de decidir e agir por um instante, o cenário já mudou e sua ação torna-se ineficaz. Quando as condições implicadas no prcesso se encontram em constante mutação caótica, a lógica pura e simples não determina a capacidade de responder eficazmente.

Tudo isso deixa as pessoas cada vez mais com medo de agir, pois nossa cultura prega o acerto, o sucesso. Essa pressão social isola os "fortes" em "prisões sociais", cujas barras são feitas de orgulho. Não é a toa que se ouve que depressão é "doença de rico". Os que recebem a alcunha de "fracos", por sua vez, tornam-se rancorosos. Eles criam alternativas que vão desde fugas psicológicas para aceitar sua condição, passando por atitude crítica aos diferentes deles, até culminarem em pretender que os outros mais favorecidos sofram. Thomas Friedman (O Mundo é plano - 2005) citou um caso entre diferenças entre culturas influenciando na situação de conflito que se dá entre dois países no oriente. Um menino de determinada cultura, quando perguntado sobre o que achava de uma mansão luxuosa avistada dizia: "Muito bonita, quando eu crescer vou comprar ela do atual dono.". Uma outra criança, da outra cultura, responderia: "Muito bonita. Quando eu crescer, vou matar o atual dono". Como não deve ser o sofrimento do dono da casa, por viver com medo, e do futuro adulto sem prespectivas de vida diferente da miséria.

Outro pensador da atualidade, Zygmunt Bauman, discorre sobre o sofrimento que se instaura no ser humano nesta condição em sua obra (BAUMMAN, 1997, Pág 33) quando diz, por exemplo:

- "É exatamente com ela [a segurança] que não podemos mais contar. Ém vez dela vivemos com a companhia constante de uma profunda ansiedade que se faz tão mais presente quanto tão mais as tentativas de uma segura apreensão do real se intensificam."

Não há segurança pois a separação organizada não mais existe. O indivíduo deve se adequar naturalmente àquilo que o mundo lhe pede. O constante aperfeiçoamento não pode ser visto como um grande desafio, mas como uma maneira de conduzir a própria vida em função de um significado. O esforço deve ser parte natural e integrante da experiência. Assim como uma partida de futebol diverte o jogador no fim de semana, ela também exige grande esforço, mas ninguém que o pratica viria a se queixar. O sucesso será cada vez mais medido pela capacidade de cada um de produzir valor, e cada vez menos pela posição ocupada.

Autenticidade, do grego "Αυθεντικότητα", sugere algo verdadeiro, genuíno, legítimo. O "significado" aqui abordado é a meta criativa para a qual se dirigir os próprios esforços. Uma pessoa verdadeiramente consciente em determindada situação é aquela que enxergou o verdadeiro significado de seu anseio. Nesses tempos pós-modernos, as pessoas cada vez mais se isolam em individualismo e se viciam em não ouvir umas às outras. Entretanto, compreender o outro é sempre muito mais simples que compreender a si mesmo. Se já há grande dificuldade em sequer prestar atenção ao outro, quanto será que os indivíduos são capazes de estar atentos a si mesmos? Sem este valor de se estar atento ao outro, não há como sequer cogitar encontrar o "significado" nas relações. Sem estar atento a si mesmo, não há como se encontrar este naquilo que se faz. E sem este, a “autenticidade” não tem bases para fluir, pois não se escolhe ser autêntico. Ou se é, ou não é, dependendo do quão fiel se está em relação àquilo que se acredita, àquilo que “significa” algo para si mesmo ou para um grupo.

2 comentários:

Clara disse...

Carlinhos,amei seus argumentos e linha de raciocinio!
Aqui vai um conselho: Comeca a registrar isso que vc escreve. Nao to brincando, vc podia vender este artigo pra uma revista, FÁCIL. Tá muito bem escrito e elaborado!
Bjos!

Clara disse...

Ah esqueci, me avisa se encontrar algum problema no seu processo de escrita (ex. nao conseguir conectar os pontos, achei a solucao deste há pouco tempo!). To pesquisando muito sobre tudo isso, alem de ler varios livros pra ampliar meu vocabulário, conversando com autores publicados e agentes. A idéia continua a mesma: Cria o bloco e depois vai detalhando ate o livro se tornar a figura q vc quer; escreva os contos e depois conecte eles, a Susanna Clarke fez isso no ótimo Johnathan Strange & Mr.Norrel.
Bjooos!