The Shadow Hunter

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Keep it Simple

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que paixão e sanidade podem ter a ver com vida e morte?


           Eu morava em uma caverna esculpida em numa rocha com saída direta para o oceano. Da varanda dos fundos era possível mergulhar ao mar e subir novamente. Rios desaguavam neste tanto pelo lado esquerdo da residência, quanto pelo direito. Internamente, o ambiente era iluminado como o de uma casa comum. Havia várias janelas. Os cômodos eram perfeitamente alinhados e retangulares.
Somente ao acordar depois na realidade que me dei conta de como era impossível esse tipo de imóvel existir. A maré engoliria a casa com ondas batendo na porta dos fundos, inevitavelmente chegando até a porta da frente. Porém, como aquele era o mundo dos meus sonhos, o oceano era só meu e se comportava de forma bastante peculiar.
Eu estive em um dos cômodos conversando com meu primo e meu irmão. Estávamos os três sentados ao chão de tacos envernizados, como fazíamos enquanto crianças na casa de uma avó hoje já falecida. O assunto era ameno, histórias que eu ouvia meu primo contar enquanto minha mente estava distraída, desejando olhar pela janela o rio maior que desaguava forte correnteza no mar. Esta janela ficava à esquerda de quem encarasse o oceano. Quando meu irmão fez uma pergunta, desviando a atenção de meu primo, eu me levantei e fui até esta janela. Senti muita vontade de mergulhar na água ali, mas desisti da ideia. Passou pela minha cabeça que a água estaria “suja”, por ser do grande rio vindo da cidade, e que a corrente seria perigosa por ser o ponto de deságue no mar.
Fui, então, até a varanda da parte de trás da casa. A saída do rio à direita era realmente vinda de uma caverna e passava exatamente ao lado, quase ao nível do chão de rocha. A correnteza era forte, mas não chegando a ser turbulenta. Minha vontade de entrar na água era imensa. Desci sem mergulhar pela frente da varanda e senti a água me envolver da forma agradável que eu desejava.
Fiquei poucos instantes aproveitando. A correnteza começara a me puxar suavemente, tendendo a me levar cada vez mais para frente da saída do rio da caverna. Dei dois impulsos fortes e me segurei em um vinco da própria rocha da varanda. Era uma pedra lisa, difícil de segurar. Puxei meu corpo e consegui com dificuldade me encostar à rocha, mas ainda sentia a correnteza querendo me levar embora. Olhei então para trás vi a paisagem da costa, por onde provavelmente flutuaria à deriva se me soltasse. Era uma imagem que marquei no mundo real da vista da costa da Ilha Grande no Rio de Janeiro, observada do canto esquerdo da praia de Lopes Mendes, ou do mar, em frente ao vilarejo de Dois Rios. Naquela direção ficariam a Praia de Santo Antônio e, em seguida, Caxadaço, Parnaioca e Aventureiro. Não era possível ver estes lugares, mas apenas o relevo montanhoso com sua forma inigualável, e saber o que ficava lá.
Depois de lutar para ficar agarrado à rocha e para conseguir subir de volta à varanda, eu despertei aqui na Freguesia de sempre, madrugada no mundo real, com a impressão segura de que aquilo que eu lutava contra seria na realidade a minha própria vontade de deixar a corrente me levar embora.
Já vivi situações em que estive nadando em correntezas difíceis de sair, sem metáforas. De todas elas saí nadando. Em todas quase morri afogado. Em apenas uma delas entrei por acidente, nas demais para tirar algum imbecil se afogando da água. Estar em uma correnteza sendo levado é uma sensação aterrorizante. É uma luta contra o desespero estimulado por ver a costa se afastando e contra a vontade que isso gera de acabar com as próprias energias nadando contra a corrente. Desesperar-se e exaurir-se são as receitas infalíveis para a morte. Se eu não morri, já que neste parágrafo não relato mais sonhos, é por que nadei na direção certa.
O mais interessante é que em todos esses casos reais não houve glória. Se você se imagina salvando alguém de se afogar, muitas vezes se vê como herói, com pessoas te aplaudindo, o imbecil que se afogava te agradecendo... Nunca vi isso. Todas as vezes que tive de agir para evitar com que um mané desses se afogasse, foi porque era em um horário e lugar que não havia ninguém mais para ajudar. Era eu ou Iemanjá que puxaria o grande babaca, para terra ou para o fundo! Pessoas se afogando são engraçadas. Elas deliram como se acreditassem que já morreram. Dá vontade de bater nelas. É irônico ao ponto de eu pensar se elas não estão tentando “chorar no próprio enterro”. Deixa isso pros vivos. Se a morte te sorri, dê-lhe uma gargalhada na cara de volta.
Uma vez você larga a carga na areia e chama alguém do posto salva vidas mais próximo. O “bundão” nem sabe que você existe. Outras, você nada até uma menina, conversa com ela, distrai, oferece a prancha para ela descansar e nada empurrando um corpo da vala para o banco de areia. Ela não te agradece: “pede desculpas”, pois você alertara a ela e ela deu de ombros.
A pior das vezes é a de você estar com amigos no fim da tarde na praia, um deles, imbecil claro, não sabe nadar direito e cai na mesma situação da menina. Entre sete pessoas, um apenas tem uma prancha de bodyboard e um par daqueles pés de pato específicos para a prática. O que acaba acontecendo é que os pés-de-pato ficam um pé com um, outro com o outro. A prancha, com o dono. Você, sem nada em princípio. Quando o idiota cai na vala, ele é um dos que está com um dos pés-de-pato. O da prancha está na areia. Por sorte – ou azar – o outro cara com o outro pé enjoa de brincar na água e lhe passa o seu. Você já alertara o idiota que já está na vala e ainda não percebeu para voltar várias vezes, mas você é um chato, claro!
Quando você termina de calçar o pé-de-pato, o imbecil te chama: “Pô, me dá uma ajuda aqui! Tá foda! Não to conseguindo voltar!” – Um pedido de socorro cheio de vergonha. Filho da ... mãe!  Lá vai você entrar na vala, uma correnteza do “car....!!!”, para do lado do cara e começa a conversar, estudando a situação e explicando o que teríam de fazer. Logo você nota que o cara tá morto de cansado e precisa decidir falar para ele ficar quieto, boiando se puder. Você acena para a areia para o outro entrar com a prancha. Demora um pouco para que te entenda, mas depois de um tempo ele chega. O quase afogado sobe na prancha para ir dividindo esforço com o que veio. O tamanho do pé-de-pato que está com você é menor do que seu pé. Você já o usou o suficiente para ficar com câimbras na panturrilha respectiva, além disso, julga que esses dois terão melhores chances de sair se estiverem com mais um pé-de-pato. Com uma prancha é bem mais tranquilo nadar para o banco de areia. Logo você os vê saindo a pé da água. Quem ficou na vala?
Parece um problema de matemática, mas é uma situação crítica: “Sem pé-de-pato, na vala, sem perna direita por causa de câimbra”. Imagine-se dando braçadas em um ângulo inclinado para fora da costa, tentando aproveitar a correnteza, dando olhadas para a areia para ver se alguém te nota, pensando em pedir socorro para si mesmo. Depois de vários minutos, já fora da arrebentação, você vê os seis pontinhos distantes “jogando bola” com chinelos enquanto você luta com a morte! Quando você se dá conta de que não tem ninguém mais prestando atenção em você, que não há outra opção senão lutar para continuar respirando, você fica perfeitamente focado. No mar, ali, você decide e conclui que se não se desesperar, pode ficar horas dando braçadas e, se quiser, pode boiar até morrer de hipotermia. Só o desespero poderia te matar afogado mesmo. Nesse processo, você chega a um ponto onde consegue entrar em uma bela onda pega desde a base, fora da arrebentação. Cruza uma bela distância com ela até sentir seus pés tocarem o chão do banco de areia. A câimbra paralisa de vêz sua perna direita, mas você manca até a praia feliz.
Ao chegar, você se joga na areia perto de onde os amigos jogam bola. O imbecil que te fez passar pela experiência toda ainda pergunta: “tá na de fora?”. Você gentilmente murmura, com a cara na areia, os braços latejando: “não, valeu!”.
Como não é irônico sonhar com “a vontade de deixar o mar me levar”, por mais que tenha a ver na verdade como se deixar levar “pelas emoções”, “paixões” e “beleza” na verdade. Eu realmente amo o oceano! Não o temo, mas o respeito, pois sei que ele infinitamente maior do que eu. Quase morri e vi morrer mais de uma vez nele, sem metáforas. Paixões não matam. Deixam apenas a sanidade comprometida por alguns instantes, o suficiente para que você queira lutar contra a morte se ela bater à sua porta. Morrer de amor é um paradoxo, uma mentira contada pelos poetas, os únicos que têm legitimidade para fazer isso! Amor é algo que faz alguém viver dignamente, pois apenas se é possível viver com dignidade, não morrer com ela. Não há beleza na morte, apenas frio, decadência e saudade. 

2 comentários:

Anônimo disse...

O pior não é se afogar na agua, e sim se afogar em si mesmo. E quem disse q na morte não ha beleza, que ela é fria....a morte pode ser bela e feliz...teria mais para falar e escrever mas meu saco acabou....neuras subliminares Cris R.

Carlos Reis disse...

Obrigado pelo comentário!

Sobre "beleza na morte", desta vez vou discordar de você completamente, meu caro. Eu tenho motivos muito bons para citar que "pode-se viver com dignidade, mas não morrer com ela" e que "não há beleza na morte, além daquela sobre a que os poetas escrevem".

Entretanto, as diversas formas de pensar são aceitáveis. Pelo padrão com que você constrói seus argumentos, você deve se sentir mais à vontade com Aristipo, Teodoro e Hegesias de Cirene. O que você diz encontra simpatizantes por esses camaradas.

Eu, neste ponto, estou mais para sentar na mesa de Marco Aurelio, Zenão, Séneca, Epicteto e o "bom de bola" Sócrates.

Neste assunto fico com esses gregos velhos aí, os existncialistas deixo de lado por hora, assim como o termo utilitarismo, paradoxo de hedonismo, John Stuart Mill etc...

Eu quase morri na água de verdade, sonhei com minha paixão querendo fazer sentido em sonho pelo mesmo elemento que quase me matou na realidade. Não é irônico?

Ainda por cima, quase todos que sairam da água por minha causa nem sabem que eu existo ou quem sou eu. O único que sabe, não faz ideia da briga que eu comprei para que ele saísse. Eu devo ser muito louco, porque é exatamente disso que eu tenho orgulho nessas histórias todas!

Confesso que esse sonho não fez muito sentido até agora. Espero só que lhe tenha entretido e a quem mais que se deu ao trabalho de ler.

Abração!